Episódio 2
Tribo
Zé Modesto, 2008 (Shiloh), o convite ao presente e à condição humana sem julgamento
Convidado: Zé Modesto, psicanalista, músico e educador, autor da obra
Composta a partir da imagem de uma dança em roda de uma tribo indígena, “Tribo” é uma canção sobre viver no presente, dividir o que se tem e abraçar a condição humana sem julgamento. O episódio reúne o próprio compositor, também formado em psicanálise, para revisitar a obra por dentro.
I. Somar, não guardar
A obra
“Se somos juntos para somar, sim, dividir seja comida pra gente viver melhor”: a canção propõe a partilha como forma de vida, não como sacrifício. Come bem quem come junto com mais gente ao redor.
A teoria
Para o indígena, diz o compositor, a natureza não é recurso, é aquilo que o compõe. É o oposto do consumismo, do “ter, ter, ter” que povoa o desejo contemporâneo: um sujeito que se sente muito sozinho precisa de experiências coletivas para balizar o próprio desejo, ou ele desliza para a esteira do consumo.
II. Corre, vem ver: tempo de ser
A obra
No momento em que o texto convoca “corre, vem ver, o tempo de ser”, a escrita rítmica muda: as frases, até então todas em anacruse, quebram o padrão. E, melodicamente, é ali que a melodia atinge sua nota mais aguda e seu intervalo mais largo, tudo reservado para esse instante.
A teoria
O presente é o disparador do processo psicanalítico: tentar trazer o futuro para o presente é ansiedade, remoer o passado é depressão. “Tempo de ser”, não de ter, é o convite a habitar o presente sem a voracidade do acúmulo.
III. Sem questão: o não julgamento
A obra
“Festar, rodar, cantar, comer com a mão, sem questão, abraçar a humana condição”: o verso convida a viver o corpo e o coletivo sem o filtro do julgamento moral.
A teoria
O não julgamento é a matéria-prima do trabalho psicanalítico, a atenção uniformemente flutuante: se o analista entra numa pilha de julgamento, a escuta se fecha. Aceitar o outro como ele é libera o inconsciente para conversar com o inconsciente, e é isso que a canção pede da vida.
Talvez o mais importante do trabalho psicanalítico seja ajudar cada um a voltar a ser um ser desejante, alguém capaz de organizar o próprio desejo.
Diálogo com ouvintes
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Ensaio
Tribo: Quando a Música se Faz Presença
O som de um tambor ressoa ao longe. Um chamado ancestral que atravessa o tempo e o espaço, ecoando no corpo antes mesmo de se tornar melodia. A música nos convoca, nos reúne, nos faz pertencimento. No giro de uma dança ou no pulsar de uma canção, existe um movimento que nos liga ao outro, à terra, ao instante. “Tribo”, de Zé Modesto, nasce desse encontro entre som e memória, entre a experiência singular e o fluxo do coletivo. Como um rito espontâneo, a canção emerge da visão de um grupo em roda, de corpos que dançam juntos e fazem do ritmo um elo invisível. Mas, para além da imagem que a inspirou, “Tribo” nos fala do agora – do tempo de ser, de sentir, de resistir.
Neste ensaio, exploramos as camadas dessa obra: seus caminhos musicais, suas conexões psicanalíticas e a forma como nos atravessa e ressoa em nossa escuta. Porque, no fundo, toda música é um convite. E toda escuta, um encontro. O projeto ACORDE – MÚSICA E PSICANÁLISE, criado e dirigido pelo psicanalista Ricardo Pezati, na companhia do também psicanalista e músico acadêmico Rafael Garbuio, coloca no divã músicas icônicas do cancioneiro brasileiro e internacional, revelando camadas e sentidos que, muitas vezes, nos escapam em uma escuta mais desatenta e meramente contemplativa. Neste texto, o próprio compositor e psicanalista Zé Modesto reflete junto a seus companheiros sobre essa simbiose poderosa e poética entre a sua música e a técnica psicanalítica.
A relação entre música e psicanálise é um campo fértil para reflexões sobre criação, emoção e significado. A canção “Tribo”, do compositor Zé Modesto, exemplifica essa conexão ao emergir de um processo intuitivo e inspirado em experiências pessoais e coletivas. Zé recorda o momento exato em que a compôs, influenciado por sua atuação como professor de história. Durante uma aula, apresentou uma imagem de uma tribo no Xingu, onde um grupo de homens dançava em círculo. A força da cena despertou sua vontade de traduzir essa atmosfera em música. Assim, letra e melodia surgiram simultaneamente, quase como um fluxo espontâneo de criação.
Desde o início, havia uma preocupação em preservar o caráter secular da canção. Para isso, Zé Modesto buscou um arranjo musical que evitasse associações religiosas, incorporando elementos sonoros característicos das tradições indígenas, como a flauta e percussões específicas. O nome “Tribo” foi escolhido ao final do processo, ainda que, atualmente, o compositor reconheça que poderia optar por outro termo, considerando a evolução no modo como os povos indígenas são referenciados. No entanto, manteve o título por respeito à intenção original da obra.
O impacto da canção foi imediato para quem a ouviu. Rafael, psicanalista e professor de música, destacou a força da composição e elogiou sua estrutura instrumental, que inclui violão, percussão e um baixo acústico. A escolha dos timbres dialoga com a proposta do disco “XILÓ”, onde Zé Modesto utilizou apenas instrumentos de madeira, como percussões de bambu, evitando metais ou couro. Esse cuidado resultou em uma identidade sonora única e coerente com a temática da obra.
Do ponto de vista técnico, a música apresenta uma dinâmica rítmica interessante. A introdução se constrói com frases anacrúsicas, conferindo fluidez e precisão matemática ao ritmo. Já no refrão, há uma mudança: o tempo forte assume o início das frases, transformando a percepção rítmica e destacando a mensagem central – “corre, vem ver, que o tempo é de ser”. Essa alternância foi uma escolha intuitiva do compositor, que buscou evocar a cadência dos cantos indígenas. Além disso, o uso de intervalos melódicos curtos ao longo da música contribui para a coesão melódica, reservando a maior abertura (o mais extenso intervalo melódico de toda a música) para o trecho “tempo de ser”, acentuando sua importância.
A canção também convida à vivência do presente, conceito essencial na psicanálise. A visão indígena, que compreende a natureza como parte indissociável da existência, contrasta com a perspectiva ocidental, que tende a tratá-la como um recurso. “Tribo” reflete essa concepção ao enfatizar o coletivo e o compartilhamento como valores fundamentais.
Outro ponto discutido foi a relação entre a letra e a luta pela existência. O trecho “abraçar a tal humana condição” sugere a aceitação da vida como ela é, incluindo seus desafios. A música também faz referência às lideranças indígenas e negras, que entendem a resistência como um elemento essencial da trajetória humana.
Acuar, rosnar, morder o mundo cão sem questão
evidencia essa postura ativa diante da realidade, mostrando que esses grupos não se limitam à passividade, mas enfrentam suas lutas com firmeza e determinação.
A dimensão emocional da música foi ressaltada através de um episódio marcante. Quando Zé enviou a canção para o cantor Renato Brás (interprete da gravação original do disco), este havia acabado de conhecer pessoalmente Dorival Caymmi. Profundamente emocionado, Renato sentiu a necessidade de gravar “Tribo”. Esse episódio reforça a força simbólica da música e sua ligação com as tradições culturais e musicais brasileiras.
O debate se expandiu para uma reflexão sobre a sofisticação da musicalidade popular. Ritmos como Maracatu e Congadas foram mencionados como expressões ricas em significado e história. A conversa também abriu caminho para futuras discussões sobre a relação entre psicanálise e canções de domínio público, explorando como essas músicas refletem e transformam a experiência humana de maneira coletiva.
Ao final da dança, os pés ainda guardam o compásso. A música cessa, mas o que foi despertado ressoa. “Tribo” nos recorda que somos corpo e voz, terra e tempo, memória e presença. Como na roda que inspirou sua criação, seguimos em movimento – na resistência que se inscreve no cotidiano, no eco das lutas que atravessam gerações, no desejo de pertencimento que se renova a cada canto entoado.
Se a música nos convoca ao instante, a psicanálise nos ensina a escutá-lo. Em cada acorde, pulsa uma história; em cada verso, um convite a olhar para dentro. É nesse entrelaçar de arte e subjetividade que seguimos, atentos ao que cada canção tem a revelar – escutando seus silêncios e sentidos, sentindo seu chamado e nos deixando atravessar por sua força.
Rafael Garbuio e Ricardo Pezati
Referências
FREUD, S. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (1912).
VIVEIROS DE CASTRO, E. A inconstância da alma selvagem (2002).
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