Episódio 9
Pretty Isn’t Pretty
Olivia Rodrigo, 2021, a maquiagem da música e a guerra contra o próprio corpo
Convidadas: Carisa Almeida, psicanalista, e Brisa Batista, nutricionista comportamental
Uma baladinha aparentemente leve, quase pop de festa de sábado à noite, sobre maquiagem, dietas e ansiolíticos. Este ensaio segue a leitura cruzada entre psicanálise e nutrição comportamental sobre a busca por um corpo que nunca é suficiente.
I. Uma canção maquiada
A obra
Sonoramente, é uma balada comum, nada indica drama. É só ao entrar no texto, comprar maquiagem, pular o almoço, tomar remédio para ficar calma, que o peso da letra aparece. A própria elaboração musical funciona como maquiagem do conteúdo.
A teoria
É um convite a interiorizar, a mergulhar no que há de mais íntimo por trás de uma superfície aceitável. A adolescência impõe a tarefa de construir um lugar no mundo, uma cara própria, separada da infância e dos pais, tarefa doída e solitária.
II. E todos estão conseguindo
A obra
“E todos estão conseguindo”: na cabeça do eu lírico, todo mundo alcança o corpo ideal, menos ela. Pesquisas mostram 40% das meninas entre 6 e 8 anos já querendo ser mais magras, 81% das americanas de 10 anos com medo de engordar.
A teoria
A imagem do filho é metade pai, metade mãe: se a mãe não aceita o próprio corpo, o filho herda essa insatisfação como parte de si mesmo, não apenas por imitação cultural, mas porque recusar aquele corpo seria recusar parte da própria origem.
III. Você ganha a batalha e perde a guerra
A obra
“Você conserta o que você odeia”, diz a canção, mas a própria letra já sabe que essa guerra não se ganha: “você ganha a batalha e perde a guerra”.
A teoria
É a lógica de tratar o sintoma sem atacar a causa: a queixa estética raramente é sobre o corpo em si, é a insatisfação deslocada para o peso, porque ali, ao menos, parece haver algo a consertar. Nunca se é suficientemente magra, suficientemente bonita, porque a pergunta nunca foi essa.
A pergunta nunca é “quando vou emagrecer”, a pergunta que fica sem resposta é “quando vou ficar bem”.
Diálogo com ouvintes
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Referências
FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930).
LACAN, J. O Seminário, livro 4: a relação de objeto (1956-57).
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