Episódio 10
Sinhá
Chico Buarque de Hollanda e João Bosco, 2011, o lamento na boca de quem foi escravizado
Convidada: Selma Pato Vila, historiadora, psicanalista e sócia fundadora do Instituto Deep
Uma canção simples que retrata, na primeira pessoa, o lamento de alguém escravizado. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a escolha de dar voz direta a essa dor, e sobre o que ela reativa em quem escuta.
I. Eu não olhei, Sinhá
A obra
Diferente de um narrador descrevendo a escravidão de fora, como em “Navio Negreiro”, Chico Buarque coloca a narração poética na boca do próprio escravizado: é ele quem fala conosco.
A teoria
Ouvir o lamento na primeira pessoa toca partes nossas que não sabem se defender, partes das quais mal temos consciência. A música traz à tona uma dor que o aparelho psíquico não processou sozinho, e a devolve como algo que já não se pode negar ter ouvido.
II. Eu choro em iorubá
A obra
“Eu choro em iorubá e rezo para Jesus”: o lamento atravessa duas línguas religiosas, a herdada e a imposta, sem que uma cancele a outra.
A teoria
É o mesmo tipo de lamento que reaparece, décadas e continentes depois, no blues: uma forma de dizer a dor que sobrevive à violência que a causou, guardando nela mesma o que não pôde ser dito de outro jeito.
III. Uma canção sem forma, como um conto
A obra
A canção não segue as formas tradicionais da canção popular, ela é, antes, um conto sem estrutura fixa, como as histórias contadas em voz alta, onde os personagens ganham vida própria na boca de quem narra.
A teoria
É justamente essa simplicidade formal que permite à música entrar “em algum lugar da alma”, sem intermediação de estrutura, ela chega direto, como as histórias contadas por alguém querido na infância chegam antes de qualquer defesa.
A gente é indefeso diante de certas dores, incapaz de entrar em contato com elas sozinho. E vem o Chico, e traduz.
Diálogo com ouvintes
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