Episódio 13

Drão

Gilberto Gil, 1982 (um trabalho), o amor que morre para germinar em outra forma

Convidada: Silvana Hare, psicanalista

Talvez a canção mais autobiográfica de Gilberto Gil, composta no momento de sua separação de Sandra Gadelha (Drão), mãe de três de seus filhos. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a transformação como arquitetura da vida, não como exceção dolorosa a ser evitada.

I. Tem que morrer pra germinar

“O amor da gente é como um grão, uma semente de ilusão, tem que morrer pra germinar”: Gil constrói a canção sobre imagens que juntam vida e morte na mesma frase, sem resolver a contradição.

Freud descreve, no sentido antitético das palavras primitivas, como o inconsciente não distingue vida e morte como opostos absolutos. O amor não morre no divórcio, se transforma em outro tipo de afeto: a mesma arquitetura, reorganizada.

II. Passos dolorosos

Melodicamente, Gil desce por graus cromáticos, semitom a semitom, uma figura que, desde o barroco, os músicos chamavam de “passos dolorosos”: uma tensão que carrega dor sem precisar de palavra.

A música fala diretamente ao inconsciente naquilo que a letra apenas sugere: o caminho é duro, a “caminhadura” (a caminhada dura e a cama dura do início do casamento fundidas numa palavra só), mas é preciso ser trilhado.

III. Trocar o conhecido pelo desconhecido

“Não pense na separação, não desperdice o coração”: Gil não romantiza o divórcio, mas recusa que a separação seja lida apenas como falta.

O medo maior não é a dor da separação, é o desconhecido: trocar um desprazer curto por um sofrimento mais longo é a estrutura de toda relação que já perdeu o sentido, mas cuja partida ainda assusta.

A separação também pode ser união: de um outro tipo de amor, de uma nova arquitetura para o mesmo afeto.

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