Episódio 15
Acalanto pra Quem tem Filha
Breno Ruiz e Paulo César Pinheiro, 2024 (Milagres), o inconsciente coletivo cantado de geração em geração
Convidado: Breno Ruiz, compositor e pianista, autor da obra
Uma cantiga de ninar composta em parceria com Paulo César Pinheiro, cuja melodia veio pronta demais, ao ponto de o próprio autor duvidar se era sua. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre o inconsciente coletivo, a hipnose e o embalo que acalma tanto a criança quanto quem canta.
I. Será que isso aqui é meu?
A obra
O compositor descreve um mal-estar recorrente ao criar: a melodia vem pronta demais, e ele se pergunta se não estaria copiando alguém sem perceber.
A teoria
Pesquisas mostram que pessoas de culturas totalmente diferentes reconhecem, com alta precisão, o que é uma canção de ninar em qualquer idioma. Isso sugere um repertório partilhado, ligado ao que há de mais básico e ancestral no psiquismo humano, algo que não pertence a ninguém e a todos ao mesmo tempo.
II. Uma melodia hipnótica
A obra
A melodia é rigorosamente simétrica, dois acordes que se repetem, um padrão rítmico que retorna quase sem variação. O efeito é hipnótico: convida ao relaxamento e ao sono.
A teoria
Em “A Interpretação dos Sonhos”, Freud liga o sono à hipnose: ambos desconectam temporariamente a razão consciente. A repetição musical da cantiga induz esse mesmo desligamento, só que pela via da arte, não de outra pessoa comandando de fora.
III. O acalanto acalma quem canta
A obra
Não é possível colocar uma criança para dormir estando nervoso: quem canta precisa se acalmar primeiro, para depois transmitir essa calma.
A teoria
O acalanto opera nos dois sentidos: acalma quem ouve e organiza quem canta. É um raro momento em que cuidar do outro e regular a si mesmo são exatamente o mesmo gesto.
Isso aqui não é meu, quer dizer, é meu também. É nosso.
Diálogo com ouvintes
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Referências
FREUD, S. A interpretação dos sonhos (1900).
JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo (1959).
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