Episódio 17

Time

Pink Floyd, 1973 (The Dark Side of the Moon), o tédio da juventude e o atropelamento da idade

Convidado: Américo Louzada, psicanalista

Um dos discos mais vendidos da história começa esta faixa com um coro de relógios e sinos, gravados enquanto a banda vivia a correria de ser uma das maiores do planeta. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre o desconforto de nunca estar no tempo certo, jovem ou velho.

I. Tédio quando jovem, atropelo quando velho

A letra começa descrevendo o tédio de um dia monótono, desperdiçando as horas na juventude, e depois salta para um homem mais velho que descobre, de repente, que dez anos se passaram sem que ninguém tenha avisado quando correr.

Em nenhuma das duas idades o eu lírico está de bem com o tempo: jovem, acha que o tempo não passa; velho, acha que passou rápido demais. É o mesmo descompasso, só que visto de dois pontos diferentes da vida.

II. Recitativo e ária

A canção alterna trechos narrativos, mais ativos, com trechos reflexivos, mais melódicos e cheios de vozes ao fundo, uma estrutura que lembra o recitativo e a ária da ópera.

A alternância entre narrar e refletir espelha a própria estrutura da elaboração psíquica: contar o que aconteceu não basta, é preciso parar e sentir o que aquilo significa. A música faz sonoramente o que a letra pede ao ouvinte.

III. O sino que chama para casa

A canção termina em casa, junto ao fogo, ouvindo ao longe o sino chamando os fiéis. Composta em meio à turnê incessante da banda, então uma das maiores do planeta, ela nasce do cansaço real de nunca estar em lugar nenhum por tempo suficiente.

Chegar em casa e não fazer nada é o único momento em que o eu lírico para de correr atrás do tempo ou de ser atropelado por ele. É o repouso como forma de finalmente habitar o presente, ainda que a letra deixe em aberto se o sino é consolo ou crítica a mais uma obrigação disfarçada de descanso.

Ele nem quando está atrasado, nem quando está adiantado, consegue viver no aqui e agora. Essa é a maior mensagem dessa música.

Diálogo com ouvintes

O que essa análise tocou em você? Conte sua leitura da obra e da teoria nos comentários do episódio ou nas redes do Acorde.

Gostou dessa leitura? Ajude o Acorde a continuar.

Apoiar o Acorde →