Episódio 19
Na Hora do Almoço
Belchior, 1974 (Belchior), a estrutura patriarcal como monotonia e o medo como liga
Convidado: Zé Modesto, educador, historiador, músico e psicanalista
Uma cena de almoço em família onde ninguém realmente se comunica: pai, mãe e irmã se chamam à mesa, mas o silêncio pesa mais que qualquer palavra. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a estrutura patriarcal como monotonia psíquica e o medo como o único elo entre os personagens.
I. Um baixo que nunca para de descer
A obra
Desde a introdução, um baixo descendente permeia a canção inteira e nunca para, caindo e recomeçando em ciclo. A melodia das estrofes se repete quase sem variação.
A teoria
A repetição musical espelha uma “infamiliaridade”: aquilo que é justamente recorrente demais na estrutura familiar, a monotonia, a falta de lugar e de tempo próprios, o desentendimento no instante mesmo em que se tenta falar.
II. Pai na cabeceira
A obra
Ao citar o pai, a melodia atinge sua nota mais grave de toda a canção, um único instante fora do padrão, a única exceção na simetria.
A teoria
O pai na cabeceira marca a estrutura colonial e patriarcal que atravessa a família brasileira: o falo não circula, a fala não circula, as ideias não circulam. É uma estagnação que se repete geração após geração.
III. Molhada de medo
A obra
“Cada um guarda mais o seu segredo, a sua mão fechada, a sua boca aberta, o seu peito deserto, a sua mão parada, lacrada e selada, e molhada de medo”: o único intervalo melódico largo da música acontece justamente na palavra medo.
A teoria
O medo é a liga que umedece o deserto familiar: não é falta de afeto entre pai e filho, é o medo do pai de que o filho sofra numa sociedade rígida que o torna, ele mesmo, rígido. É um medo transmitido como proteção, mas vivido como distância.
O trabalho analítico é, de certa forma, um trabalho de descolonização da alma: torná-la gradativamente livre dos grilhões que a impedem de sentir e expressar o que ela mesma pede.
Diálogo com ouvintes
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Referências
FREUD, S. O estranho (Das Unheimliche) (1919).
GONZALEZ, L. Racismo e sexismo na cultura brasileira (1984).
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