Episódio 24
Fala
Secos e Molhados, 1973, o pedido que só se sustenta na escuta que não entende rápido demais
Convidada: Paula Sucena, psicanalista e docente do Instituto Deep
Faixa de lado B do disco de estreia do Secos e Molhados (1973), curtíssima, quase toda feita de “lalalá”. Episódio comemorativo de um ano de podcast. Este ensaio segue a leitura sobre a associação livre escondida num refrão que não diz nada, e sobre o valor de não entender rápido demais.
I. Se você disser tudo o que quiser, então eu escuto
A obra
“Eu não sei dizer nada por dizer, então eu escuto. Se você disser tudo o que quiser, então eu escuto”: a letra é curtíssima, quase toda repetição, cantada na voz rara de Ney Matogrosso.
A teoria
É quase uma tradução direta da associação livre, a regra fundamental da psicanálise: diga tudo o que quiser, tudo o que tiver na cabeça, e eu escuto. É Freud cantado quatro anos antes de qualquer manual explicar isso a um leigo.
II. Se eu não entender, não vou responder
A obra
O refrão que segue, “fala, la la la la”, não é uma narração inteligível: preenche-se com o que o ouvinte quiser. Não há mensagem fechada, só o convite a continuar falando.
A teoria
É a coisa mais bonita de um bom analista: se eu não entender, eu não respondo, porque entender fecha, e Lacan já avisava, não compreenda depressa demais. A escuta uniformemente flutuante deixa o “lalalá” seguir rolando até que algo realmente chame atenção.
III. Diga que eu não sei nada, nem posso saber
A obra
A última faixa do disco seguinte do Secos e Molhados responde a esta: “diga que eu não sei nada, nem posso saber”. No mesmo lugar em que “Fala” pedia para escutar, o disco seguinte confessa a própria ignorância.
A teoria
É uma resposta do sujeito a si mesmo, não uma conclusão. Gravado em 1973, no auge da ditadura, ao lado de “Cálice” de Chico Buarque, “Fala” compartilha o mesmo pano de fundo: a dificuldade de se expressar, resolvida por dois caminhos diferentes que coexistem.
Quanto menos palavras tem, mais direto é o efeito. E essa peça é totalmente direta.
Diálogo com ouvintes
O que essa análise tocou em você? Conte sua leitura da obra e da teoria nos comentários do episódio ou nas redes do Acorde.
Gostou dessa leitura? Ajude o Acorde a continuar.
Apoiar o Acorde →