Episódio 26

Resposta ao Tempo

Cristóvão Bastos e Aldir Blanc, 1998 (Nana Caymmi), o diálogo entre o ego ideal e o ideal de ego

Convidada: Selma Pato Vila, historiadora, psicanalista e sócia fundadora do Instituto Deep

Um poema preciso de Aldir Blanc sobre bater na porta do tempo, imortalizado na voz de Nana Caymmi. Episódio que encerra a série sobre o tempo. Este ensaio segue a leitura sobre a resposta que o eu dá a si mesmo, um diálogo entre o ego ideal e o ideal de ego.

I. Bebo um pouquinho pra ter argumento

“Batidas na porta da frente, é o tempo, eu bebo um pouquinho pra ter argumento, mas fico sem jeito, calado”: o eu lírico chega desarmado ao primeiro confronto, precisando de coragem emprestada.

É o ego ideal predominando: aquele que ainda tem medo do tempo, que se incomoda com a opinião alheia, que vive para agradar. A psicanálise descreve esse par, ego ideal e ideal de ego, como duas vozes que conversam a vida inteira dentro de cada um.

II. Respondo que ele aprisiona, eu liberto

A canção vira o jogo: “respondo que ele aprisiona, eu liberto, que ele adormece as paixões, eu desperto”. O tempo passa a ser confrontado de frente, não mais temido em silêncio.

É a migração para o ideal de ego: viver de acordo com o próprio desejo, não com o desejo que os outros desejam que se deseje. Passar de refém do tempo a alguém que dá respostas ao tempo é o percurso inteiro que a psicanálise chama de amadurecer.

III. No fundo é uma eterna criança que não soube amadurecer

A última estrofe devolve a acusação ao próprio tempo: é ele, não o eu lírico, quem “não soube amadurecer”. “Eu posso, ele não vai poder me esquecer.”

É um diálogo do ego consigo mesmo: aquela parte que não amadureceu é vista à distância, contrastada com quem amadureceu. A canção não é uma resposta que se dá a ninguém, é uma resposta que só se precisa dar a si mesmo.

Morrer, para mim, é deixar de viver. É quando a gente permite que as paixões se esmaeçam.

Diálogo com ouvintes

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