Episódio 31
Eu Não Sou Eu
Zélia Duncan e Lucina, 2005, o eu como miragem construída pelo olhar do outro
Convidada: Thaís Mariana, psicanalista, docente do Instituto Deep e pesquisadora do LIPSIC-USP
Uma canção que se declara miragem, sombra fresca da realidade de quem ama. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a formação do eu em Winnicott, o inconsciente que não é senhor da própria casa em Freud, e a impossibilidade de separar completamente o eu do olhar do outro.
I. Eu sou sua miragem, sombra fresca da sua realidade
A obra
O eu lírico se anuncia como projeção do outro, não como realidade: “sou sua resposta, sua ilusão de ótica palpável”. A miragem, quanto mais se aproxima, mais desaparece.
A teoria
Freud descreve, na introdução ao narcisismo, o momento em que a libido de objeto aumenta tanto que a pessoa quase some para si mesma: o enamoramento como um estado em que se ama mais o que se diz do outro do que o outro em si.
II. O eu não está dado desde o nascimento
A obra
O título, “eu não sou eu”, nomeia diretamente a possibilidade de que o eu se perca, ou nunca tenha se constituído por completo diante do olhar apaixonado de outra pessoa.
A teoria
Winnicott descreveu os processos pelos quais um bebê vem a se perceber como um ser único, separado da mãe. O eu não é garantido para sempre: pode se perder de novo em certos momentos da vida, como no apaixonamento.
III. Sou alguém que você imaginou
A obra
O refrão devolve a imagem ao outro: “sou alguém que você imaginou, uma visão do seu amor”. Nem o eu, nem o outro, se sustentam sozinhos nessa equação.
A teoria
É justamente no olhar do outro que um si mesmo se constitui, ao mesmo tempo em que esse olhar pode destituir esse mesmo eu. O poeta Mário de Sá-Carneiro escreveu que não é ele nem o outro, mas o pilar de uma ponte entre os dois: a canção habita exatamente essa ponte.
O ego não é senhor nem em sua própria casa. Isso que a gente acha que é eu é só a parte que a gente conhece do eu.
Diálogo com ouvintes
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Referências
FREUD, S. Introdução ao narcisismo (1914).
WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade (1971).
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