Episódio 34
Eduardo e Mônica
Legião Urbana, 1986, as razões do coração e o filme que fecha a fantasia
Episódio especial em parceria com o podcast Cinema em Mente (Stephanie Krieger e Lincoln Bravillieri)
Composta por Renato Russo, a canção narra o encontro de dois adolescentes de mundos opostos e virou, décadas depois, o filme de René Sampaio (2020), com Alice Braga e Gabriel Leone. Episódio em parceria com o podcast Cinema em Mente, sobre o que a música deixa em aberto e o que o filme, ao fechar, tira de cada ouvinte.
I. Não existe razão das coisas feitas pelo coração
A obra
A canção abre com uma pergunta que nunca se fecha: “quem um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração?” A melodia e a letra retomam essa pergunta mais adiante, sem nunca respondê-la.
A teoria
A oposição clássica entre razão e emoção não sustenta as escolhas humanas: não é possível separar o que se decide “com a cabeça” do que se decide “com o coração”. Deixar a pergunta sem resposta é, em si, a resposta mais honesta que a canção poderia dar.
II. Cem mil Mônicas, cem mil Eduardos
A obra
A letra delineia os personagens sem fechá-los: sabemos a idade de Eduardo, mas nunca a de Mônica. Cada ouvinte, ao longo de décadas, construiu sua própria Mônica na cabeça, cem mil versões diferentes para cem mil ouvintes.
A teoria
É a fantasia funcionando como só ela funciona: uma tela projetada sobre um vazio deixado propositalmente na letra. Quando o filme mostra sua Mônica, uma escolha, corajosa e específica, ele necessariamente rompe a fantasia particular de cada espectador, e é curioso que a gente não rejeite essa quebra, e sim acabe adotando a nova imagem.
III. Quem é inferior a quem
A obra
No filme, Eduardo tem 16 anos, joga futebol de botão com o avô e assiste novela; Mônica lê Rimbaud, ouve Bauhaus e os Mutantes, está terminando medicina. Logo na primeira cena juntos, ela pergunta se ele é gay; ele responde: “não, eu sou realista”.
A teoria
A assimetria cultural sugere Eduardo como inferior a Mônica, mas o filme inverte o jogo aos poucos: a inteligência emocional dele, como ele lida com sentimentos, se mostra superior à dela. Cultura e idade não determinam quem está mais pronto para o encontro com o outro.
O filme convida a sair do lugar de achar que alguém está num pódio acima do outro. Cada um, com suas idades e características, tem muito a acrescentar naquela relação.
Diálogo com ouvintes
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Referências
FREUD, S. Conferências introdutórias sobre psicanálise (1917).
WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade (1971).
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