Episódio 35

Sonho Meu

Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho, 1978 (Maria Bethânia), o sonho como personagem e o banzo da ancestralidade negra

Convidado: Zé Modesto, psicanalista, historiador e musicista

Um samba em tom maior que esconde um grande lamento, composto por Dona Ivone Lara, enfermeira que trabalhou com Nise da Silveira na luta antimanicomial. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre o sonho como personagem que se manda buscar quem mora longe, e sobre o banzo como herança ancestral do povo negro.

I. Sonho meu, vai buscar quem mora longe

A canção transforma o sonho num personagem a quem se pede um favor: ir buscar quem mora longe. Dona Ivone Lara viajava para municípios vizinhos em busca dos parentes de pacientes internados, trazendo de volta um vínculo perdido.

Freud descreve o sonho como o mensageiro do inconsciente. Aqui, o movimento parece invertido: a consciência manda um recado ao inconsciente, pedindo que ele vá buscar o que está longe demais para se alcançar sozinho.

II. Um samba em tom maior para cantar melancolia

Apesar de escrita em tom maior, tradicionalmente associado à alegria, a melodia do refrão se baseia numa terça menor, o intervalo mais sofisticado da música ocidental, remetendo a algo mais ancestral e melancólico.

O banzo, termo da ancestralidade negra que nomeia um canto profundo de saudade e despertencimento ouvido nas senzalas, ecoa aqui: quem sofre de uma questão mental vive esse mesmo desencontro com um mundo normativo que só cabe alguns corpos.

III. Uma trabalhadora que também musicalizava a cura

Dona Ivone Lara foi enfermeira e assistente social na colônia Juliano Moreira, ao lado de Nise da Silveira, e é considerada uma das primeiras referências da musicoterapia no Brasil, além de primeira compositora mulher aceita nas rodas de samba do Império Serrano.

O sonho, para autores pós-freudianos como Bion, não é apenas o sonho do estado de dormir: é aquilo que permite subjetivar a própria vida e diferenciar cada um enquanto ser vivo. Uma mulher que passou a vida cuidando da saúde mental alheia compôs, quase intuitivamente, uma canção sobre essa mesma função.

O sonho é o que nos permite subjetivar a nossa vida e nos diferencia enquanto seres vivos.

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