Episódio 38
O Mundo Dentro da Minha Cabeça
Juliano Holanda e Anderson Cunha, 2017 (Sertanília), a linguagem como parasita e o dentro que não é só a cabeça
Convidado: Marcelo Veras, psicanalista, psiquiatra e coordenador do PSIU-UFBA
Uma canção da banda baiana Sertanília sobre um sujeito visto como lunático por carregar um mundo estranho na própria cabeça. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a distinção lacaniana entre o inconsciente e o cérebro, e sobre a linguagem como algo que vem de fora e nos atravessa.
I. Seguindo o caminho do meu pensamento
A obra
A canção começa descrevendo o mundo externo, o teto, o gesso, as antenas, antes de mergulhar no que chama de “mundo de dentro da minha cabeça”. A descrição do fora antecede o mergulho no dentro.
A teoria
Para a psicanálise lacaniana, o inconsciente não é literalmente “dentro” da cabeça: é atravessado pela linguagem, e a linguagem não é nossa, vem de fora. Só temos condição de dizer “eu” a partir do momento em que nos alienamos a essa linguagem emprestada.
II. Me tem por lunático, doido, biruta
A obra
“Por mais que eu declame, ninguém me escuta, as minhas palavras parecem castigo”: o eu lírico é visto como louco por carregar um universo interno tão vasto e estranho quanto o próprio cosmos.
A teoria
A psiquiatria biológica tende a reduzir o psiquismo ao cérebro; a psicanálise entende que pensar não está “no” cérebro do mesmo modo que ver não está apenas no globo ocular, mas na linguagem que os atravessa, uma linguagem herdada, não inventada por cada um sozinho.
III. A interpretação que ressoa no corpo
A obra
A melodia repetitiva e hipnótica, próxima da tradição do repente nordestino, joga o corpo de quem escuta num universo sonoro específico antes mesmo de qualquer palavra fazer sentido.
A teoria
Lacan levou anos mostrando que a interpretação analítica não é apenas palavra atuando sobre palavra: ela ressoa no corpo, porque as palavras se colam ao corpo desde sempre. A música, como a interpretação, atinge algo que a linguagem sozinha não alcançaria.
O mundo de dentro da cabeça do compositor vai também acessar, de forma sofisticada, o mundo de dentro de quem ouve. É aí que acontece o diálogo entre esses muitos mundos.
Diálogo com ouvintes
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