Episódio 46
Wuthering Heights
Kate Bush, 1978, a voz de uma morta batendo na janela e a experiência emocional que ultrapassa palavra
Convidada: Márcia Barreto, psicanalista, doutoranda em arte e psicanálise
Composta aos dezoito anos, a canção é literalmente um trecho do romance de Emily Brontë (1847) cantado na primeira pessoa por Catherine, já morta, batendo na janela de Heathcliff. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a psicanálise implicada, que se deixa atravessar pela obra em vez de apenas interpretá-la de fora.
I. Heathcliff, sou eu, a Cathy
A obra
Kate Bush não interpreta o livro, ela encarna Catherine, já morta, voltando como assombração para bater na janela de quem ama. Não é uma leitura do romance, é uma vivência dele.
A teoria
É a diferença entre uma psicanálise que aplica conceitos à obra e uma psicanálise implicada, que se mistura com ela, deixando-se penetrar e mobilizar pela experiência emocional de quem escuta, não apenas descrevendo-a de fora.
II. Os morros uivantes
A obra
O título nomeia o vento que uiva sobre a charneca, um som que ainda não é palavra, apenas atmosfera, gemido, sensação bruta.
A teoria
A sublimação, na psicanálise, é o processo de trazer uma vivência bruta e primitiva para uma dimensão em que ela pode ser pensada, não racionalmente, mas como experiência emocional. Kate Bush faz esse trabalho com o som antes mesmo de qualquer palavra explicar o que aquele uivo significa.
III. Uma mulher escrevendo em isolamento, entendida por outra 130 anos depois
A obra
Emily Brontë escreveu o romance isolada, sem contato com o mundo exterior, décadas antes do lançamento oficial da psicanálise por Freud. Kate Bush, no fim dos anos 1970, entende algo dessa obra de um jeito quase impossível de explicar racionalmente.
A teoria
São obras que atravessam os tempos porque tocam lugares universais e primitivos da condição humana, o desamparo diante da vida. Artistas assim não simplesmente produzem, eles encarnam: fazem real algo que só existia em potência.
Cantar é mais do que lembrar, é mais do que ter tido aquilo. É mais do que viver, do que sonhar, é ter o coração daquilo.
Diálogo com ouvintes
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Referências
BRONTË, E. O Morro dos Ventos Uivantes (1847).
FREUD, S. Projeto para uma psicologia científica (1895).
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