Episódio 53

Invitation to the Blues

Tom Waits, 1976 (Small Change), a corte respeitosa de um narrador dentro da própria cena

Convidado: Marcelo Backes, escritor, tradutor e crítico literário

Uma narrativa completa em forma de canção: um homem sozinho num boteco americano, apaixonado por uma garçonete, entre a timidez e o desejo. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a construção quase cinematográfica da cena, e sobre a idealização amorosa que projeta em quem se ama uma imagem maior que a realidade.

I. Ela parece com a Rita Hayworth

O eu lírico compara a garçonete comum de um boteco à atriz Rita Hayworth, uma das mulheres mais bonitas do cinema clássico: provavelmente uma idealização, não um retrato fiel.

A gente sempre doura a pílula de quem se ama: cola-se, sobre a pessoa real diante de si, uma imagem interior idealizada. É o mesmo mecanismo de Proust, quando Swann só se apaixona por Odette ao identificá-la com uma figura de Botticelli: a referência externa autoriza o amor a se intensificar.

II. Ovos ao ponto ou mexidos?

No momento mais tenso da corte, quando ele hesita entre avisar que está de passagem ou seguir em frente, ela corta com uma pergunta puramente profissional: como ele quer os ovos.

É o momento em que, no processo amoroso, uma pessoal é escolhida entre inúmeras outras possíveis: ele decide continuar, respondendo “de qualquer jeito, é o único jeito”, uma frase que é, ao mesmo tempo, sobre os ovos e sobre a própria disposição de seguir apesar do risco.

III. A voz que arrasta como um ébrio

A dicção de Tom Waits nesta faixa é mais arrastada que em outras do mesmo disco, quase como alguém embriagado, tropeçando nas próprias palavras.

Não se sabe até que ponto é a própria embriaguez do narrador que está fantasiando toda a cena: talvez ela nunca tenha contado sua história de “sugar daddy” perdido, talvez tudo seja projeção de quem, sozinho, precisa de um convite ao blues para dar sentido à noite.

Ela é uma tentação ambulante da cabeça aos pés. Isso é apenas um convite para o blues.

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