Episódio 55
Negro Drama
Racionais MC’s, 2002 (Nada Como um Dia Após o Outro Dia), o trauma que não se elabora porque continua acontecendo
Convidado: Jairo Carioca, psicanalista, doutor em educação, autor de “Eu Rasurado: Manifesto Afro-Pindorâmico”
Composta por Mano Brown e Edi Rock, uma das obras mais potentes já escritas sobre a periferia brasileira. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre o “negro drama” como trauma que não se elabora, e sobre a escrevivência de Conceição Evaristo como método de existir a partir da própria margem.
I. Um trauma destuinte
A obra
“Nego drama, entre o sucesso e a lama”: logo na primeira frase, a canção mostra um sujeito que alcançou o sucesso mas continua preso a uma exclusão que o sucesso não apaga.
A teoria
Diferente de traumas que se elaboram em análise, o “negro drama” é um trauma destuinte: não se elabora porque é vivenciado cotidianamente, pautado em algo ainda na ordem do dia, o racismo. Não é um passado a ser trabalhado, é um presente contínuo.
II. O eu rasurado
A obra
A composição é dupla: Mano Brown encarna a voz arquetípica do condenado, do drama coletivo da diáspora, enquanto Edi Rock introduz o paradoxo do sujeito mestiço, que desafia as categorias estanques do projeto de branqueamento nacional.
A teoria
O “pardo” é uma categoria de rasura: uma ilusão de estar mais perto do branco que na verdade cria uma crise identitária, o “eu rasurado”, que não encarna nem totalmente a negritude nem a branquitude, preso entre categorias que a própria sociedade colonial inventou para dividir.
III. Escrever daquilo que sangra
A obra
Só Mano Brown consegue cantar esta letra com essa honestidade porque ele fala daquilo que viveu, não apenas do que pensou sobre a periferia de fora.
A teoria
Conceição Evaristo chama de escrevivência esse método: diferente da etnografia europeia, que pede distanciamento entre pesquisador e pesquisa, os corpos de margem escrevem tendo a própria margem como paradigma, não um ponto de vista, mas um ponto de vida.
O racismo é um crime perfeito, porque ele não permite que o eu negro se torne, de fato, um eu.
Diálogo com ouvintes
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Referências
EVARISTO, C. Escrevivência (conceito, diversas obras).
FANON, F. Pele negra, máscaras brancas (1952).
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