Episódio 58
Memória
Rosalía com Carminho, 2025 (Lux), o fado como língua sem fronteira e o desespero universal de ser esquecido
Convidadas: Selma Pato Vila e Márcia Barreto, psicanalistas
Uma faixa do álbum Lux, cantada em português por uma artista espanhola vinda do flamenco, ao lado de uma das grandes vozes do fado. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre as fronteiras artificiais entre línguas e povos, e sobre a memória como o único remédio contra o desespero de ser esquecido.
I. Recorda-me, por favor, alguma coisa
A obra
“Recorda-me, por favor, alguma coisa, o que for, que eu não consigo lembrar”: o pedido é quase desesperado, uma súplica para não ser apagada da memória de quem se ama.
A teoria
O que os meninos na internet chamam hoje de “cancelamento” é o mesmo desespero antigo de ser esquecido, abandonado, não olhado. Ser abandonado é justamente isso: não ser visto. A velocidade e a superficialidade dos relacionamentos contemporâneos intensificam esse medo ancestral.
II. Duas vozes parecidas, dois sotaques diferentes
A obra
Rosalía canta em português com sotaque espanhol, Carminho responde em português de Portugal: as vozes são parecidas o bastante para confundir, mas os acentos revelam origens diferentes que se encontram sem se anular.
A teoria
Na Galícia, na fronteira entre Portugal e Espanha, fala-se o galaico-português, prova viva de que as fronteiras nacionais são artificiais: o que existe de fato, e que nos une, é uma raiz comum anterior a qualquer divisão política.
III. Só quem vive reconhece os próprios traços
A obra
Quando perguntada por que cada disco seu parece destruir o anterior, Rosalía respondeu que, para ela, é sempre a mesma coisa: ela reconhece nos trabalhos novos os traços dos antigos.
A teoria
Só cada um consegue encontrar as próprias “Pompeias”: as camadas soterradas de si mesmo que só quem viveu sabe reconhecer. É a mesma lógica de uma obra de arte genuína, que sempre tem algo novo a dizer a quem volta a ela.
Uma obra de arte, seja qual for, é aquela que sempre tem o que nos dizer quando a gente volta a ela.
Diálogo com ouvintes
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Referências
CALVINO, I. Por que ler os clássicos (1991).
FREUD, S. Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen (1907).
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