Episódio 59
Um Defeito de Cor
Samba-enredo da Portela, 2024, a carta entre mãe e filho e a lei não escrita de pedir perdão pela própria cor
Convidada: Thaís Klein, psicanalista, professora da UFF e do PPG em Teoria Psicanalítica da UFRJ
Baseado no romance de Ana Maria Gonçalves, o samba-enredo transforma um fato histórico, a Revolta dos Malês, em carta cantada entre Luiza Mahin e seu filho Luiz Gama. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a transmissão de um mesmo afeto por diferentes linguagens artísticas, e sobre o “defeito de cor” como herança colonial que atravessa também a história da psicanálise.
I. Nega, nego: um diálogo que se encontra na Sapucaí
A obra
O livro de Ana Maria Gonçalves é narrado por Kehinde/Luiza Mahin em primeira pessoa; o samba-enredo inverte a carta, fazendo-a soar como se fosse do filho, Luiz Gama, para a mãe, e os dois personagens se encontram, de fato, no desfile.
A teoria
O livro, como as cartas reais entre Van Gogh e seu irmão Theo, é um convite ao outro para pensar junto: cartas são documentos que não precisam ser oficiais para carregar verdade, apenas precisam abrir espaço de conversa.
II. Pedir perdão pela própria cor
A obra
O título nomeia uma prática não escrita do Brasil colonial: para assumir cargos públicos, pessoas negras deveriam escrever uma carta pedindo perdão pelo “defeito de cor”, tratando a própria pele como um erro a ser desculpado.
A teoria
Essa herança de embranquecimento estrutural também atravessou os primeiros psicanalistas que se aventuraram na análise no Brasil: a própria disciplina carrega as marcas de um pensamento que exigiu, historicamente, que corpos negros se explicassem ou se corrigissem.
III. Um mesmo afeto em muitas linguagens
A obra
O mesmo fato histórico passa do documento à literatura, da literatura ao samba-enredo, do samba-enredo ao desfile, e agora chega ao podcast: uma mesma essência se transmite por materiais completamente diferentes.
A teoria
Como no exemplo do campo de papoulas transformado em pintura: não há nada da imagem original na tela, mas ao olhar para o quadro a imagem retorna. É essa transformação, não a cópia fiel, que caracteriza a boa transmissão de uma história.
A história oficial é contada pelo vencedor, já dizia Walter Benjamin. O samba-enredo é outra forma de contar quem venceu de fato.
Diálogo com ouvintes
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Referências
GONÇALVES, A. M. Um Defeito de Cor (2006).
BENJAMIN, W. Teses sobre o conceito de história (1940).
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