Episódio 67
Panis et Circenses
Os Mutantes / Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1968 (Tropicália), a crítica que se disfarça na estética que critica
Convidada: Thaís Maia, escritora, professora e pesquisadora da música popular brasileira
Gravada simultaneamente por Os Mutantes, então adolescentes, e pelo coletivo do álbum Tropicália, a faixa que batiza o movimento inteiro é um marco da vanguarda brasileira de 1968. Este ensaio segue a leitura do episódio sobre a antropofagia como método, e sobre a arte que critica o mercado usando a própria estética do mercado.
I. Made, made, made in Brasil
A obra
Ao falar de sangue “encadernado, já vem pronto e tabelado”, a letra muda o arranjo para a estética de jingle publicitário, criticando o “American way of life” com as próprias ferramentas dele.
A teoria
É antropofagia no sentido oswaldiano: comer aquilo que se quer criticar, para criticá-lo de dentro. Usar a estética do inimigo contra ele mesmo é mais sofisticado que a canção de protesto direta que também circulava naquele momento histórico.
II. Uma tuba de coreto onde não devia estar
A obra
O arranjo de Rogério Duprat mistura uma linha de baixo que soa como tuba de banda de coreto com solos de trompete caricatos, remetendo ao circo e ao coreto num disco de vanguarda erudita.
A teoria
A colagem sonora que junta o circo, o coreto e a crítica social séria é de uma sofisticação rara: falar de coisas graves através de uma estética que tira sarro de si mesma, sem nunca perder a seriedade do que está sendo dito.
III. Meninos de 16, 19 anos fazendo mágica
A obra
Os Mutantes tinham entre 16 e 19 anos quando gravaram o disco em 1968, um ano depois do impacto do Sgt. Pepper’s dos Beatles no Brasil, e produziram algo à altura da vanguarda internacional com recursos muito mais limitados.
A teoria
É uma característica de certos artistas que a arte só materializa em poucos: a sensibilidade para captar o espírito do tempo, dando forma a discursos, ideias e afetos que já fervilhavam na sociedade sem ainda ter um nome reconhecível.
O público que vaiou o tropicalismo não detinha os códigos para ler aquela mensagem. Os códigos foram sendo democratizados, partilhados, com o tempo.
Diálogo com ouvintes
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Referências
ANDRADE, O. Manifesto Antropófago (1928).
FAVARETTO, C. Tropicália: Alegoria, Alegria (1979).
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