O Quereres
Agora só falta você
Habanera
Faltando um Pedaço
Eu Não Sou Eu

Ensaio especial

Uma Escuta na Música: O Amor

Onze canções, uma mesma ferida: amar é sempre se perder um pouco no olhar do outro. Este ensaio reúne as leituras construídas ao longo de onze episódios do Acorde para traçar um percurso: do eu que se constrói e se desfaz na expectativa alheia, à falta que move o desejo, à pulsão que nenhum laço doma por completo, e à raiz infantil que sustenta, sem que se saiba, todo amor adulto.

Com base nos episódios 1, 7, 28, 29, 31, 32, 34, 39, 41, 46 e 49.

I. O eu que se constrói e se desfaz no olhar do outro

A série de estreia do Acorde já dá o tom: em O Quereres (Caetano Veloso), o eu lírico deseja se aprisionar inteiramente na expectativa do outro, ser exatamente o que o outro quer que ele seja — mas nenhum sujeito suporta esse exílio sem fim. A gente se constrói pelo querer do outro, mas também se separa dele pelo querer, e é esse movimento duplo que sustenta a divisão de qualquer sujeito. Décadas depois, na canção mais recente da lista, Eu Não Sou Eu (Zélia Duncan e Lucina) leva a mesma ideia ao limite: o eu se declara miragem, “alguém que você imaginou”, uma projeção que desaparece quanto mais se aproxima. O eu não é garantido para sempre — pode se perder de novo em certos momentos da vida, como no apaixonamento.

O ego não é senhor nem em sua própria casa. Isso que a gente acha que é eu é só a parte que a gente conhece do eu.

II. A falta que move o desejo

Se o amor não completa, o que ele faz? Em Agora Só Falta Você (Rita Lee), composta logo após sua expulsão dos Mutantes, o título faz da falta o motor da canção inteira, não seu fim: em psicanálise, a falta não é defeito a corrigir, é o que abre espaço, o que movimenta o desejo. Faltando um Pedaço (Djavan) chega à mesma conclusão por outro caminho: mesmo no auge da entrega, “o coração de quem ama fica faltando um pedaço, que nem a lua minguando”. Diferente do desejo, que nasce da falta e cessa quando satisfeito, o amor permanece mesmo tendo — sempre incompleto, sempre articulado com a demanda. É esse mesmo tempo de decisão que Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor (Lô e Márcio Borges) condensa no microtempo entre abrir uma porta e entrar: nem procrastinação, nem precipitação, mas a hesitação elevada à dignidade do ato, o instante subjetivo em que cabe uma vida inteira.

O desejo é querer algo novamente, mas não saber o que é esse algo. Nessa busca do saber, o desejo vai se articulando com a demanda e com o amor.

III. A pulsão que nenhum laço doma

Em Habanera, da ópera Carmen de Bizet, o amor é cantado como pássaro rebelde: “se você não me ama, eu te amo; se eu te amo, tome cuidado”. Para Freud, a pulsão é uma força avassaladora, impossível de controlar, apenas de ajustar — e Carmen a encena sem disfarce, recusando-se a servir de espelho narcísico a quem a ama. O medo que esse tipo de amor provoca não é falha: é o preço exato de deixar de transformar o outro em objeto, de amar de fato quem se recusa a ser só reflexo.

Todo encontro provoca turbulência emocional. O outro desperta em mim algo, e ali começa uma história que não pertence só a mim, nem só a ele.

IV. A raiz infantil de todo amor adulto

Duas canções revelam o mesmo segredo por caminhos opostos. Chico Buarque contou ter escrito Você, Você observando seu neto pequeno admirar a própria mãe — e a canção, ouvida sem essa chave, soa como qualquer letra de amor romântico. É uma ode à relação edípica: o desejo infantil e o desejo adulto compartilham a mesma gramática, a mesma “luz debaixo da porta” que busca a presença de quem se depende inteiramente. Em Eduardo e Mônica (Legião Urbana), a pergunta que abre a canção — “quem irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração?” — nunca se fecha, e o vazio deliberado em torno de Mônica é a fantasia funcionando como só ela funciona: uma tela projetada sobre o que cada ouvinte, e cada criança diante do outro que ama, precisa inventar para si.

A canção é a presença musicada de uma ausência. Cada frase parece falar de um casal, até que a senha do próprio autor muda tudo.

V. O amor que a sociedade usa e nega

Em Geni e o Zepelim (Chico Buarque), o amor aparece pelo avesso: uma cidade joga pedra em Geni até precisar dela para se salvar — e depois volta a jogar pedra. Geni é sempre necessária, mas apenas de forma velada, nunca reconhecida, como as figuras marginalizadas que seguram, em silêncio, o que uma comunidade não suporta admitir sobre si mesma. Não é a promiscuidade que choca nessa mulher que “faz o que ela quer e não o que querem que ela queira”: é a autonomia, alguém que não se submete à economia do desejo alheio, o que faz dela a criatura mais ética da canção.

Geni é a criatura mais ética que existe: generosa, bondosa, e a única que a canção não deixa falar.

VI. Amar sozinho, amar para sempre

As duas últimas canções tratam do amor no seu limite. Em Dança da Solidão (Paulinho da Viola), o refrão revela um interlocutor — “eu danço você na dança da solidão” — mas talvez a pior solidão seja justamente essa, sentida na presença de alguém, uma multidão de sozinhos que dançam acompanhados sem se encontrar de fato. Em Wuthering Heights (Kate Bush), o amor atravessa a própria morte: Catherine, já morta, volta como assombração para bater na janela de quem ama, numa vivencia que a psicanálise implicada não interpreta de fora, mas se deixa atravessar por ela. Entre a solidão a dois e o amor que sobrevive ao corpo, resta a mesma pergunta que abriu o ensaio: talvez nunca se ame sem se perder, ao menos um pouco, no outro.

Cantar é mais do que lembrar, é mais do que ter tido aquilo. É mais do que viver, do que sonhar, é ter o coração daquilo.

Onze canções, uma única elaboração possível: amar é aceitar se construir e se desfazer no olhar de quem se ama, aceitar que a falta não se fecha, que a pulsão não se doma, que toda paixão adulta carrega uma raiz infantil, e que o amor, mesmo negado ou solitário, segue sendo o que sustenta o que ninguém mais suporta segurar sozinho.